Máscara neutra 1

São muitos os caminhos que levam um ator para a expressão. Começar a expressão com a compreensão de que o “corpo branco”, neutralizado de intenções subjetivas, inicialmente pode criar uma ponte de sustentação para a criação.

Para criar este “corpo branco”, a máscara neutra visa a expressão objetiva da subjetividade do ator, dando-lhe meios seguros para criar.

 

O primeiro exercío é a conscientização da mente e do corpo como unidades indissociaveis.O ator não deve pensar com a máscara, mas sim agir.

É com a ação, que deve surtir uma emoção, que o ator deve apoiar seu trabalho.Importante pensar que  emoção é um conceito que nada tem de similaridade com o sentimento, o próprio nome diz: emoção= colocar em ação.

A unica forma de achar a tal ação é a retirada de preceitos anteriores a ação, no presente , no aqui e agora teatral.

A máscara neutra, como exercío, retira os pensamentos da ação cênica, pois se eles lá estiverem certamente o corpo congelará e não conseguirá executar nenhum movimento.Os pensamentos então devem tornarem-se corpo e o corpo deve tornar-se pensamento unindo os pontos no presente do presente.

A neutralidade

A Máscara Neutra é um dos grandes exercícios para a preparação do ator, que faz a união entre corpo e pensamento.

O corpo torna-se pensamento e o pensamento ganha corpo.

É com essa união que o ator pode realizar o primeiro passo para uma fluidez de sensações, energéticas e viáveis para sua atuação.máscara neutra

Com ela a atuação torna-se precisa, pois aquilo que normalmente é codificado pela face, tem de tornar-se corpo, assim o ator aprende a chorar com o corpo todo ou ainda sorrir integralmente.

É com esse caminho que chamamos inicialmente de neutralidade, que buscamos depois integrar elementos dramaturgicos para uma possível síntese de tensões inetrnas e externas.

Desta forma potencializando o corpo para uma integração com o pensar na cena.

À seguir um artigo sobre Jacques Lecoq e seu treinamento com máscara neutra:

http://www.performingplays.co.uk/uploads/resources/12/jacques-lecoq-by-ryan-lane.pdf

Para ir além , para descobrir e criar algo novo a respeito da condição humana, necessitamos de um processo de des-humanização.O tranzhomem exige um máximo de disposição, comprometimento e imaginação para transformações constantes de paradigmas. É preciso fazer xixi pelo ouvido, e muito mais…

Maura Baiocchi/ Wofgang Pannek

A pesquisa

A Líquido Noir Studio é uma Cia que estuda o ato teatral como um ponto de encontro comunicativo, que realiza as potências de todos os participantes deste momento.

Nesse encontro o ator deve dar conta não de uma abordagem demonstrativa de uma ficção, mas sim ele deve mostrar suas sensações e abrir um fluxo sincero com o público, para que com ele possa ser construído uma perspectiva, uma abordagem, uma arte.

Essa proposta de construção cênica aproxima dois universos: a performance e o teatro, e une essas possibilidades no momento presente da cena de tal forma que ela torna-se um espaço de compartilhamento de uma experiência comum.

Desta forma o espaço é proposto como ritual, na presença tanto do ator como do público, que ganha papel ativo na ação cênica, abrindo na pesquisa a percepção para essa comunhão, que deve iniciar-se no corpo do ator.

O corpo do atuante nessa pesquisa deve estar liberto do ego limitador, isto é , deve estar livre das limitações impostas por questões formuladas por um pré-conceito da comunicação.O ator deve abrir-se para o todo das sensações adquiridas no momento da ação cênica,  deixando seu corpo responder aos estímulos flutuantes de todos os participantes do ritual.

Esse corpo flutuante é chamado pela Cia de “corpo líquido”, que não retém nenhuma informação, mas sim responde a elas na ação física.

Para a concretização desta ação  física, utilizamos como técnicas a máscara neutra, a mímica corpórea dramática e o View Points (método de construção coreográfica, criado por Anne Bogart, no qual todos os elementos da cena são focados separadamente para um desenvolvimento total da cena).

A máscara neutra nos trás uma limpeza corporal precisa, além de desenvolver a fala através do corpo do atuante, pois através da neutralidade de expressões ele se coloca em risco para dizer através do corpo.

A mímica corporal dramática desenvolve o gesto preciso do atuante para através da recepção dos estímulos da platéia, respondendo com a criação de uma ficção originária no corpo.

O View Points nos dá através da não interpretação (uma das regras dentro do jogo do View Points)  o entendimento das potencialidades da cena, podendo desta forma responder com fluidez a comunicação gerada com o público.

Mas para a concretização desta pesquisa ocorrer é necessária a presença do outro, do público, do observador ativo.

Essa presença é o que faz com que haja efetivamente o desenvolvimento da pesquisa e faz com que todo o processo em sala se realize.

É através deste encontro que uma dramaturgia pode ser construída, com as pulsões da fricção entre o público e os atores, criando no exato momento do encontro as bases que podem ser relidas depois em sala de trabalho, para que em um novo encontro possam ser resignificadas até cristalizarem-se em um texto, que tanto serve como registro deste tempo de encontro como também servem de  possibilidades de novas escrituras para a cena.

O ser e o nada

Uma das vertentes que estamos pesquisando é a relação do individuo, como comunicador tanto ativo quanto passivo no ato de comunicação, e a cidade como agitadora desse ato comunicativo, transformadora de signos e simbolos.

Para isso buscamos o espaço da neutralidade como ponto de partida, buscando o nada que comunica por sí só.

Começamos então a adentrar o universo de Ann Bogart com os View Points, como ferramenta para esse não interpretativo que busca a expressão.

Com o espaço interno valorizado pela escuta do espaço externo, desenhamos então duas potencialidades: o círculo de atenção interna e o externo.

O exercício então virou explodir o interno no externo, buscar o nada e o já estar conectado com o externo para dai extrair uma expressão não conduzida, mas ao mesmo tempo viva e forte.

O escuro não é iluminável, o escuro é um modo de ser:o escuro é o nó vital do escuro e nunca se toca no nó vital de uma coisa.Pois a coisa não pode ser realmente tocada.O nó vital é um dedo apontando-o.

A paixão segundo G.H – Clarisse Lispector

Primeiras questões

 

A liquido noir iniciou em um encontro entre dois atores e o desejo de comunicarem-se com o público de hoje, tão diverso e complexo.

Estudamos alguns pensadores que nos ajudassem a compreender esse fenomeno do chamado homem pós moderno e descobrimos Zygmuth Baumann, que escreve sobre a “Modernidade Líquida”.

Para Baumann vivemos em um momento líqido em que tudo é volátil, rápido e de multiplas faces, em oposição a um momento anterios em que a sociedade alicersava-se sobre conceitos sólidos criando superestruturas que romperam-se sobre o seu próprio peso

“A base da vida social outorgava a todos os outros domínios o estatuto de superstruturas”.

A situação presente emergiu então do derretimento radical dos grilhões e das algemas que limitavam a liberdade individual de escolha.

Segundo Baumann-”O derretimento dos sólidos, traço permanente da modernidade, adquiriu, portanto, um novo sentido, e, mais que tudo, foi redirecionado a um novo alvo, e um dos principais efeitos desse redirecionamento foi a dissolução das forças que poderiam ter mantido a questão da ordem do sistema”.

Dessa forma os padrões de comunicação foram trocados colocando uma dicotomia entre o individuo e a sociedade, deixando questões que outrora nos fortalecia enquanto sociedade como as chamadas “categorias zumis”.Nessas categorias estão a família, a classe social,o bairro e tantas outrs entidades que uniam as questões individuais e sociais

É na fricção dessa oposição que queremos extrair uma ficção, entendendo esse homem moderno, rizomático, para com ele se comunicar.