A Líquido Noir Studio é uma Cia que estuda o ato teatral como um ponto de encontro comunicativo, que realiza as potências de todos os participantes deste momento.
Nesse encontro o ator deve dar conta não de uma abordagem demonstrativa de uma ficção, mas sim ele deve mostrar suas sensações e abrir um fluxo sincero com o público, para que com ele possa ser construído uma perspectiva, uma abordagem, uma arte.
Essa proposta de construção cênica aproxima dois universos: a performance e o teatro, e une essas possibilidades no momento presente da cena de tal forma que ela torna-se um espaço de compartilhamento de uma experiência comum.
Desta forma o espaço é proposto como ritual, na presença tanto do ator como do público, que ganha papel ativo na ação cênica, abrindo na pesquisa a percepção para essa comunhão, que deve iniciar-se no corpo do ator.
O corpo do atuante nessa pesquisa deve estar liberto do ego limitador, isto é , deve estar livre das limitações impostas por questões formuladas por um pré-conceito da comunicação.O ator deve abrir-se para o todo das sensações adquiridas no momento da ação cênica, deixando seu corpo responder aos estímulos flutuantes de todos os participantes do ritual.
Esse corpo flutuante é chamado pela Cia de “corpo líquido”, que não retém nenhuma informação, mas sim responde a elas na ação física.
Para a concretização desta ação física, utilizamos como técnicas a máscara neutra, a mímica corpórea dramática e o View Points (método de construção coreográfica, criado por Anne Bogart, no qual todos os elementos da cena são focados separadamente para um desenvolvimento total da cena).
A máscara neutra nos trás uma limpeza corporal precisa, além de desenvolver a fala através do corpo do atuante, pois através da neutralidade de expressões ele se coloca em risco para dizer através do corpo.
A mímica corporal dramática desenvolve o gesto preciso do atuante para através da recepção dos estímulos da platéia, respondendo com a criação de uma ficção originária no corpo.
O View Points nos dá através da não interpretação (uma das regras dentro do jogo do View Points) o entendimento das potencialidades da cena, podendo desta forma responder com fluidez a comunicação gerada com o público.
Mas para a concretização desta pesquisa ocorrer é necessária a presença do outro, do público, do observador ativo.
Essa presença é o que faz com que haja efetivamente o desenvolvimento da pesquisa e faz com que todo o processo em sala se realize.
É através deste encontro que uma dramaturgia pode ser construída, com as pulsões da fricção entre o público e os atores, criando no exato momento do encontro as bases que podem ser relidas depois em sala de trabalho, para que em um novo encontro possam ser resignificadas até cristalizarem-se em um texto, que tanto serve como registro deste tempo de encontro como também servem de possibilidades de novas escrituras para a cena.